Saúde e bem-estar

Movimento, aprendizagem e saúde

Como a redução das atividades corporais tem impactado a coordenação motora, o processo de aprendizagem e a saúde das crianças.

Publicado em 19 Mai 2026
Capa da Pauta

Temos acompanhado, com olhar atento e cuidadoso, algumas mudanças importantes no desenvolvimento das crianças — especialmente no que diz respeito à coordenação motora fina e grossa. Essa constatação tem se tornado cada vez mais evidente no cotidiano escolar, sobretudo nas aulas de Arte e Educação Física, e também se manifesta em atividades acadêmicas, como a escrita, quando segurar o lápis, controlar o traço ou manter uma postura adequada se tornam desafios maiores do que o esperado para a faixa etária.

A ciência tem contribuído de forma significativa para a compreensão desse cenário. Estudos recentes indicam que o aumento do tempo de exposição às telas, associado à redução de experiências concretas e corporais, pode impactar diretamente o desenvolvimento neuropsicomotor das crianças (GIUBERTI; SILVA; COELHO, 2024). Professores da Educação Infantil relatam, com frequência, dificuldades em habilidades básicas, como recortar, colar, pintar dentro de limites ou manipular pequenos objetos — competências fundamentais para a construção da escrita e da autonomia (DARIUS; SCHIRMER; FRANCO, 2023).

E aqui cabe uma reflexão essencial: a infância precisa de mãos em ação e corpos em movimento. Atividades como rasgar papel, recortar figuras, brincar com massinha, encaixar peças, abrir e fechar potes, usar pregadores, peneirar farinha, transferir líquidos com funil, varrer, misturar ingredientes, amarrar cadarços — todas essas experiências, embora simples, têm um enorme valor formativo. Da mesma forma, correr, pular, subir em brinquedos, equilibrar-se, brincar de pega-pega, andar de bicicleta, jogar bola ou explorar um parque são vivências indispensáveis para o desenvolvimento global (SILVA, 2021; RADAVELLI, 2024).

Quando essas experiências vão sendo substituídas por longos períodos diante de telas — muitas vezes de forma passiva —, o repertório motor da criança tende a se empobrecer. O corpo, que deveria ocupar lugar central na infância, passa a assumir um papel secundário no processo de desenvolvimento.

Além dos impactos motores e cognitivos, esse estilo de vida mais sedentário traz também implicações importantes para a saúde física. A redução da atividade corporal, associada a hábitos alimentares desequilibrados — frequentemente marcados pelo consumo excessivo de alimentos ultraprocessados —, tem contribuído para o aumento dos índices de sobrepeso e obesidade infantojuvenil. Esse quadro não se restringe à dimensão estética: está relacionado a riscos metabólicos, cardiovasculares e emocionais, além de influenciar diretamente a disposição, a autoestima e o engajamento da criança e jovens nas atividades escolares (FERREIRA et al., 2024; MEIRELLES, 2024).

É importante lembrar que a coordenação motora fina — responsável por ações como segurar o lápis, recortar com precisão, desenhar e escrever — está diretamente relacionada ao desempenho acadêmico. Já a coordenação motora grossa — que envolve movimentos amplos como correr, saltar e equilibrar-se — contribui para a organização corporal, a atenção, a postura e até a autorregulação emocional. Essas dimensões caminham de forma integrada e dependem, essencialmente, da vivência prática e do movimento (ROSA NETO et al., 2020; MARONESI et al., 2015).

No Colégio Cecília, esse cuidado está presente de forma intencional em nosso cotidiano. No Curso de Educação Infantil — e também nos demais segmentos — buscamos garantir que as crianças e os jovens vivenciem experiências significativas que envolvam o corpo e as mãos. Nas aulas de Arte, exploramos diferentes materiais, técnicas e propostas que convidam à experimentação: pintar, modelar, montar, explorar texturas, criar. Já nas aulas de Psicomotricidade e Educação Física, o movimento é vivenciado de maneira ampla e prazerosa, por meio de circuitos motores, jogos, desafios corporais, brincadeiras tradicionais e práticas esportivas.

Não se trata apenas de propor atividades casuais, mas de oferecer experiências que promovam autonomia, confiança, coordenação e consciência corporal. Trata-se de um trabalho pedagógico que reconhece que aprender também passa pelo corpo — e que o movimento é parte essencial desse processo.

Reforçamos, ainda, a importância da prática regular de atividades físicas e esportivas. Além de fortalecer o corpo, o esporte contribui para o desenvolvimento emocional, favorece a convivência, o respeito às regras e a persistência diante de desafios. Crianças fisicamente ativas tendem a apresentar melhores níveis de atenção, maior disposição para aprender e uma relação mais saudável com o próprio corpo e com o outro (FERREIRA et al., 2024).

Sabemos que a tecnologia faz parte do nosso tempo — e não se trata de excluí-la. No entanto, é fundamental que ela não substitua experiências essenciais para o desenvolvimento infantil. O equilíbrio é a palavra-chave.

Por isso, deixamos um convite às famílias: que, em casa, as crianças tenham oportunidades reais de fazer, tentar, explorar, criar, se movimentar e até se sujar um pouco. Que participem de pequenas tarefas do cotidiano, brinquem ao ar livre, experimentem diferentes materiais e vivam uma infância com mais mãos em ação e mais corpo em movimento.

Escola e família, juntas, constroem esse caminho.

 

Referências

DARIUS, Rebeca Pizza Pancotte; SCHIRMER, Letícia Tavares; FRANCO, Vitória Schmidt. Impacto do ensino remoto no desenvolvimento motor fino na fase de alfabetização. Revista Formadores, 2023.

FERREIRA, Éliton A. et al. A relação entre a exposição precoce às telas e o desenvolvimento motor infantil. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, 2024.

GIUBERTI, Antonia Daniela Silva; SILVA, Antonia Dara Alves da; COELHO, Sara Ferreira. O uso excessivo de telas e o desenvolvimento neuropsicomotor de crianças: uma revisão integrativa. Revista FT, 2024.

MARONESI, Letícia Carrillo et al. Análise de uma intervenção dirigida ao desenvolvimento da coordenação motora fina, global e do equilíbrio. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, 2015.

MEIRELLES, Barbara de Farias. Os efeitos do uso de telas sensíveis ao toque para o desenvolvimento da motricidade fina na fase pré-escolar. Ciência Atual, 2024.

RADAVELLI, Leonardo dos Santos. Associações entre o uso de telas, funções executivas e o desenvolvimento motor de crianças. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso – Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

SILVA. Estudos sobre tempo de tela e coordenação motora grossa em crianças. Universidade Tecnológica Federal do Paraná, 2021.